Pergunta de Yara Onate i.v.d.onate@stir.ac.uk
Por favor, fale sobre perspectivismo
Resposta do Professor Virtual
Yara
Perspectivismo é a doutrina, digamos, epistemológica de Nietzsche. Mas é uma doutrina epistemológica com ressalvas. Diz respeito à idéia de que o conhecimento não está sujeito ao que chamaríamos de verdade como correspondência, uma vez que a verdade é uma noção mais moral e sócio-linguística do que epistemológica. Uma tal doutrina pode ser vista, também, como parte de uma cosmologia. Afinal, as perspectivas não são, em Nietzsche, perspectivas do homem, mas da "vontade de potência". Se tomarmos a "vontade de potência" como um elemento cosmológico e não metafísico, o que a meu ver faz mais sentido, então o perspectivismo é inerente à diversidade de forças no cosmos.
Uma tal doutrina é, em certa medida, a doutrina do contextualismo, holismo ou relacionalismo dos pragmatistas. Os pragmatistas eram e são pluralistas não só porque são democratas, mas também porque olham para o universo e enchergam nele diversidade na unidade natural.
A idéia básica, que o pragmatismo desenvolve a partir do perspectivismo, é a de crítica à metafísica. Toda a metafísica, nesta abordagem crítica, é dual, toma tudo em dois mundos com estatutos ontológicos distintos, e que então o real é o interno às coisas e o aparente é o periférico. O pragmatismo abole essa diferença: tudo é natural e histórico ao mesmo tempo, e nada do que há no "interior" é mais importante do que há no "exterior", e nem há um elo entre o sensível, "exterior" ao supra-sensível, "interior". O mundo é um conjunto de relações: relações causais e relações racionais, sem que se possa dizer que se trata de relações que estariam sob rótulos ontológicos distintos. Dizer que as coisas se relacioam causalmente e dizer que elas se relacionam racionalmente é uma questão de enfoque, de sabermos o que usar para descrever o mundo de modo a podermos utilizar melhor dele, lidarmos com eles e conosco mesmo. Ser pragmático e pragmatista é ser alguém que, ajudado pelo perspectivismo, sabe que pode contar com várias descrições e optar por aquela que lhe dá mais condições de lidar melhor com o meio.
Essa posição pode ser atacada por alguns como relativista. Mas não é. Basta recordar que, em Nietzsche, ela depende da "vontade de potência" e esta, no final, escolhe posições. Nos pragmatistas também não existe a idéia de que "tanto faz": cada posição considerada verdadeira ou boa o é por uma opção argumentada. A diferença é que em Nietzsche o que comanda a opção é que a "vontade de potência" quer ver a potencialização da potência, e nos pragmatistas há um vínculo com Hegel, onde a opção por uma decisão em relação a uma posição, em geral pesa o quanto nos é dado de liberdade se a adotarmos.
Paulo Ghiraldelli Jr.
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Centro de Estudos em Filosofia Americana



