Blog de perguntas e respostas. Use nossa comunidade no Orkut ou nossa lista!

1/29/2006

Estudar Filosofia

Edileuza - edileuzamarcia@uol.com.br - pergunta:

O que seria então ser intelectual e porque nem todos que estudam a filosofia conseguem de fato filosofar? Quero saber se isso se significaria, acredito, levandar questionamentos a cerca do mundo a sua volta! buscando com rigor, radicalidade e sistematização, o que se encontrou na raiz das questões elaboradas inicialmente, fazendo uma relação com o contexto atual, e colocando estes sempre na dúvida, na certeza do incompleto ou incerto.
Sabemos que somos determinados e isso nos condiciona de certa forma pelo sistema vigente (capitalismo) , porém acredito na capacidade humana de pela reflexão critica da realidade q esta inserido, isso seja possível(exercitar a Filosofia)
Para mim a Filosofia não seria nem mesmo uma disciplina, mas uma prática que realizamos cotidianamente, ao trabalhar com meus alunos na EJA por exemplo, isso é uma realidade e percebo, sinto as inquietações q eles tem a despeito do mundo , mesmo com um "nível intelectual" dito "não satisfatório" por alguns. Percebo errado?
Abraços!
Edileuza Márcia

Resposta

Edileuza

O sistema pelo qual você entrou na filosofia foi uma regra. Era o do Saviani, não? Mas aquilo deveria ter sido apenas um passo. O Saviani reduzia a filosofia a um tipo de método de reflexão. Não havia conteúdo propriamente filosófico para ela. Eu compartilho da reflexão de um filósofo que às vezes faz algo parecido, que é o Rorty. Ele reduz a filosofia a aspectos técnicos, às vezes, para dizer que a filosofia não tem nada a ver conosco. E às vezes ele vai para a atividade dos filósofos, e mostra que eles não tem nada em comum, para dizer que a filosofia não poderia ser reduzida a aspectos técnicos. Rorty é um esgrimista, e então, eu que quero lê-lo seriamente, vejo que ele oscila de propósito.
A filosofia é, sim, um discurso com um núcleo técnico, onde os problemas estão alinhados de certa forma. Podemos perceber que os filósofos possuem perguntas que tem a ver com perguntas do passado, de outros filósofos, mesmo que o modo de perguntar ou mesmo as próprias perguntas sejam outras. Por isso, ninguém nega que exista coisas como ética, epistemologia, cosmologia, ontologia, pedagogia, política, estética etc. São o conteúdo da filosofia. Agora, a filosofia pode se debruçar sobre assuntos comuns, e com o que aprendeu na sua discussão técnica, abordar de um modo novo assuntos comuns, não propriamente filosóficos ou só tangencialmente filosóficos.
O melhor modo de fazer ambas as coisas é estudar um bom filósofo, de modo a aprender com ele a filosofar, e, ao lado disso, estudar a história da filosofia, para integrar o saber daquele filósofo no contexto filosófico. Complementa-se isso tudo com a leitura em outras áreas e com um treinamento para produzir um texto inteligível. Se fizer isso, estará no caminho.

Paulo Ghiraldelli Jr.

1/26/2006

Pragmatismo - Habermas, Rorty, Apel e Putnam


Pergunta de Leandro Hollionalicy holliphylos@hotmail.com
Bom dia Paulo,

É um prazer falar com você, sou graduado em Filosofia pela PUC-MG e atualmente estou trabalhando na definição de um tema e elaboração de um projeto para o mestrado. Na verdade eu tenho trabalhado a virada linguistica na perspectiva de Appel, uma vez que minha pretenção é a de buscar e apontar possíveis pressupostos que possam legitimar uma possível fundamentação da Ética nas premissas da linguagem.
O fato é que achei muito interessante a abordagem que você fez de Rorty em relação ao tema e gostaria de saber em que obra deste autor eu posso encontrar esta análise.
Resposta do Professor Virtual
Leandro

Conhecimento é "crença verdadeira justificada". Ao menos desde Platão, através do discurso de Sócrates. Os epistemólogos atuais aceitam a definição. Bom, a que ela conduz? Para quem é fundacionista, o problema é ver como que a "crença verdadeira", seja qual for a teoria de verdade que temos, pode ou não ganhar justificação, ou melhor, ganhar fundamentação.
Habermas e Apel, na Europa, e Putnam, nos Estados Unidos, estão interessados nisso. Os franceses do pós-estruturalismo e os americanos Rorty e Davidson, certamente não.
Debatendo com Rorty, Habermas sintetiza as perspectivas dos fundacionistas. A proposição é verdadeira se ela pode ser justificada sob condições epistêmicas ideais (Putnam), ou se ela pode vencer argumentativamente em uma situação ideal de fala (Habermas) ou se ela pode vencer argumentativamente em uma comunidade ideal de comunicação (Apel).
As posições parecem semelhantes. Mas a pequena diferença faz toda a diferença. Pois na prática é mais fácil Rorty, sem querer ser fundacionista, simpatizar com o projeto de Habermas.
Veja, Rorty rechaça a necessidade da filosofia ser fundamentadora. Mas ele a mantém como uma força de persuasão, e ele acredita que seu projeto de lutar por situações de liberdade - que envolve um esforço grande pela liberdade de expressão -, do ponto de vista político, tem a ver com a luta de Habermas que envolve, fora do campo da fundamentação, querer ver, na realidade, a "situação ideal de fala". Nesse sentido, a parte da filosofia de Rorty, é negativa. Se ela tem alguns aspectos positivos, como a idéia de redescrição, isso não é propriamente filosófico, para ele, pois poderia ser feito por outros intelectuais não-filósofos. Agora, a parte política de Rorty, esta sim é positiva - ele realmente está engajado, como político, na democracia.
Bem, agora, cabe a você ir adiante. A bibliografia básica é esta:

Rorty, R. & Ghiraldelli Jr., P. Ensaios pragmatistas sobre subjetividade e verdade. Rio de Janeiro: DPA, 2006.
Rorty, R. Pragmatismo e política. São Paulo: Martins Fontes, 2005.
Ghiraldelli Jr., P. Caminhos da filosofia. Rio de Janeiro: DPA, 2005.
Ghiraldelli Jr., P. Richard Rorty. Petrópolis: Vozes, 1999.

Todavia, para estudar Rorty, é necessário saber Davidson um pouco. Estou preparando um manual para isso. Bem, continue a coisa e me procure!
Paulo Ghiraldelli Jr. - www.ghiraldelli.pro.br

1/05/2006

Noções Básicas do Pragmatismo? Experiência

Pergunta
Saudações professor Paulo
Meu nome é Vânia Mesquita
vaniaimpress@yahoo.com.br Só o conheço virtualmente por participar da lista "teoria crítica" e ler seus textos e emails. Como sei que você é um conhecedor incomparável do Pragmatismo gostaria que me falasse um pouco sobre algo que sempre me deixou na dúvida e, ultimamente, está me fazendo falta saber. Fale sobre algumas categorias do pragmatismo. Confundo por vezes os conceitos com as categorias. Experiência e subjetividade fazem parte dessas categorias? Desde já, muito grata.

Resposta
Vânia
Fazíamos diferenças entre conceitos e categorias, há bem pouco tempo. Era uma prática acadêmica - busca de rigor, etc. Categorias eram, por assim dizer, "conceitos chaves" de uma teoria. Os autores marxistas gostavam desse tipo de palavreado, principalmente nos anos 60, 70 e 80. Eu mesmo usei essa diferenciação, acho que quando fui professor da PUC-SP, nos cursos de pós-graduação.
As discussões atuais deixam essa diferenciação de lado. Ela não era importante, de fato. Quando se quer dizer que alguma noção desempenha um papel chave em uma teoria, em geral, atualmente, falamos que se trata de uma "noção técnica". Ou seja, hoje em dia, até por influência do pragmatismo na cultura filosófica geral, falamos mais em desempenho de uma noção no interior da teoria, e isso remete ao nome "noção técnica".
Sobre a filosofia do pragmatismo, a noção chave foi, no passado, a noção de experiência, e atualmente a noção de linguagem e usos da linguagem é mais própria da atenção do pragmatismo. A idéia básica do pragmatismo era a de favorecer o holismo contra as perspectivas dualistas. Então, por exemplo, se alguém pensa na dualidade corpo-mente, sendo que o corpo é "físico" e a mente é "não-física", o pragmatismo do passado via na experiência o elo entre tais instâncias. Hoje em dia, tendemos a ver o elo em algo mais, digamos, palpável da própria experiência, que é a linguagem - ela é física, uma vez que está no mundo, no entanto guarda um elemento que é não-físico e, no entanto, não precisa ser chamado de metafísico, nem precisa não ser natural, que é a relação social de entendimento que ela estabelece pelos seus usuários. Isso parece ajudar mais o pragmatismo atual.
Agora, subjetividade é uma noção ampla, de toda a filosofia, mas em especial da filosofia moderna que é, ela própria, em toda sua extensão, uma "filosofia do sujeito". Aqui é necessário você ler mais. Eis então a sugestão.
Veja mais sobre isso no meu livro Caminhos da filosofia (DPA, 2005). No próximo livro, que já está para sair, junto com o professor Rorty, há artigos específicos sobre isso. No meu site também. O próximo livro pela DPA é o Ensaios pragmatistas.
Precisando mais, chame! (De brinde, vai o desenho aí em cima, a caricatura do James).

Paulo Ghiraldelli Jr. - www.ghiraldelli.pro.br e www.filosofia.pro.br



 
^

Powered by BloggerPROFESSOR VIRTUAL by UsuárioCompulsivo
original Washed Denim by Darren Delaye
Creative Commons License